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SECÇÃO: Cultura |
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PORTUGUESIA: UM PROJECTO LITERÁRIO QUE PASSA POR CABO VERDEWilmar Silva esteve em Cabo Verde, num trajecto que o trouxe de Minas Gerais até Portugal, passando depois por Bissau. Terá continuidade por S. Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique e por aí fora. Na forja, um livro-antologia, CDs e DVDs Sorocaba, 12 Agosto - Não é comum, no âmbito acadêmico do Brasil, um projeto alcançar dimensão mundial pela importância da pesquisa, sobretudo se lançado a partir de Minas Gerais, cuja significação, ao contrário da inércia a que é submetida a quase totalidade das propostas, tem amplo interesse para a dialógica, o intercâmbio lingüístico-autoral, a amplitude de uma cultura premida pelo próprio idioma, no caso, o português, a discussão necessária, séria e produtiva das poéticas em estado de prospecção de linguagem em todos os países de incidência lusófona. O poeta, performer, editor e incentivador da arte dos Inconfidentes, Wilmar Silva, vem desenvolvendo o projeto Portuguesia: Minas entre os povos da mesma língua – antropologia de uma poética, aprovado pela Lei Estadual de Incentivo à Cultura de MG, patrocinado pela Usiminas, com apoio institucional da CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e orientado pelo professor doutor e também poeta Wagner Moreira. A matéria a seguir registra com justiça a façanha do pesquisador em viagens, entrevistas, filmagens coleta de informações, para incluir a mineiridade na cultura universal produzida na língua de Camões e Fernando Pessoa, Drummond e Affonso Ávila. SE A LÍNGUA NASCE E JUSTIFICA UM PAÍS, A POESIA NÃO TEM PÁTRIA NEM FRONTEIRA. Para sentir a magnitude do Portuguesia é recomendável reconhecer que mesmo o inglês se tornando cada vez mais a língua universal, o mundo cultural inclui outros idiomas como o espanhol e o português, e com certeza o mandarim num futuro-já. A língua portuguesa, através de sua significação, presentificou-se no planeta, ainda que não tenha se imposto, fora do espectro acadêmico, como língua de referência literária, o que se deu com a distinção do prêmio Nobel a José Saramago, em 1998. “Híbrido por natureza, justifica Wilmar Silva, o projeto Portuguesia coloca a poesia entre as políticas de existência do homem, uma vez ser impossível falar do mundo e das pessoas sem pensar na importância da poesia não apenas em nível semântico ou performance de lingüistas. Poesia é cultura e contracultura, quando lemos o Nordeste em “Morte e Vida Severina”. Poesia é civilização, quando entramos pelo “Grande Sertão: Veredas”. Poesia é ciência, quando pensamos em “Catatau”. Poesia é reforma agrária em “Cobra Norato”. Poesia é explosão em “Galáxias”. Poesia é iluminação de um eu coletivo, quando mestiçamos “Discurso da difamação do poeta”. Poesia é passeata, quando entendemos “A cor da pele.” Poesia é a provocação. O sangue e a origem do ser humano e de todos os seres está entrecruzado na poesia, porque a poesia é a natureza sexual da existência. Para entender a cultura de um povo e de uma civilização é preciso entender a política das poéticas. Ezrapondear “Os cantos” é o mesmo que pensar em organismos vivos que são a geografia e a história de uma língua material. “Song of myself” é talvez uma ciência de compreensão das células-tronco. “Paranóia” é engenharia urbana. “O medo” é vidência. “Cante lá que eu canto cá” é enxada. “Poema sujo” é saudade. “Foolturo” são rastros de um liquidificador. Então Portuguesia é a cultura lusófona em sua voltagem mais mestiça, puxando aqui Darcy Ribeiro para os problemas do poema.” O que surpreendeu o pesquisador foi a ampla receptividade ao projeto, em suas viagens a Portugal, Guiné-Bissau, Cabo Verde e Minas Gerais. Na cidade do Porto, Wilmar Silva foi alvo de página dupla no jornal “O Primeiro de Janeiro”, produzida por Filipa Leal, e de João Bonifácio, para o jornal “O Público”, de Lisboa. No Brasil, o caderno Pensar é o primeiro a registrar o projeto. Por onde tem peregrinado Wilmar Silva, o projeto Portuguesia é reconhecido como um marco na pesquisa em função da poesia em língua portuguesa. E são muitos os poetas envolvidos, com quem Wilmar Silva se encontra, entrevista, documenta iconograficamente: de MG: Edimilson de Almeida Pereira, Adriano Menezes, Milton César Pontes, Niccolas Ranieri, Mário Alex Rosa, Babilak Bah, Sebastião Nunes, Márcio Almeida, Romério Rômulo, Luís Eustáquio Soares, Ana Elisa Ribeiro, Luiz Edmundo Alves, Tábata Morelo, Fabrício Marques, Jovino Machado. De Portugal: E.M. de Melo Castro, Fernando Aguiar, Luís Serguilha, José Luís Peixoto, Valter Hugo Mãe, Jorge Melícias, Gonçalo M. Tavares, João Miguel Henriques, Filipa Leal, André Sebastião, José Rui Teixeira, Antonio Ramos Rosa, Golgona Anghel, João Rasteiro, Ruy Ventura. Em Guiné-Bissau: Huco Monteiro, Félix Siga, Odete Costa Semedo, Agnelo Regalla, Patche di Rima. Em Cabo Verde: Vivianne Nascimento, Vera Duarte, Armênio Vieira, Jorge Carlos Fonseca, Danny Spínola. PUBLICAÇÕES PREVISTAS AGREGAM VALOR À LÍNGUA, À POESIA, AUTORES E LEITORES Outro diferencial do projeto Portuguesia: Minas entre os povos da mesma língua – antropologia de uma poética está em publicar o que Wilmar Silva qualifica como “contraantologia numa seqüência desseqüenciada com a inclusão de 100 poetas/autores, com 1 a 5 poemas por autor, mais um texto introdutório de minha autoria e um ensaio escrito por Wagner Moreira, além de um DVD com os poetas em performance, gravado por mim em seus respectivos cachapregos.” É o caso, por exemplo, de Filipa Leal na confusão da Rua Santa Catarina no Porto, José Luís Peixoto nas fachadas do Bairro Alto em Lisboa, Valter Hugo Mãe no Atlântico de Vila do Conde, Rui Lage nos jardins do Palácio de Cristal do Porto, Odete Costa Semedo na Praça do Palácio destruído em Bissau, Dany Spínola no Farol de Praia, em Cabo Verde, Milton César Pontes nas pedras de Ouro Preto, Tábata Morelo na torre de um prédio no centro de Belo Horizonte, Sebastião Nunes nos jardins internos do Palácio das Artes, Jovino Machado na Praça da Liberdade. Outra publicação prevista, informa ainda Wilmar Silva, é o “Doc.MinasPortuguesia”, que será lançado após suas andanças finais por todos os países. ALGUMAS CONCLUSÕES ANTECIPADAS Wilmar Silva prepara um grande evento em Belo Horizonte, no final do ano, e outros em países lusófonos, para aumentar ao máximo a visibilidade do projeto, justificando o espaço da poesia contemporânea produzida em língua portuguesa, e, de modo especial, a presença de Minas Gerais nesse contexto globalizado. O pesquisador, no entanto, antecipa algumas conclusões do seu trabalho: “Limites ao léu – poesia: words set to music (Dante via Pound), uma viagem ao desconhecido (Maiakovski), cernes e medulas (Ezra Pound), a fala do infalável (Goethe), linguagem voltada para a sua própria materialidade (Roman Jakobson), permanente hesitação entre som e sentido (Paul Valéry), fundação do ser mediante a palavra (Heidegger), a religião original da humanidade (Novalis), as melhores palavras na melhor ordem (Coleridge), emoção relembrada na tranqüilidade (Wordsworth), ciência e paixão (Alfred de Vigny)...se faz com palavras, não com idéias (Ricardo Reis/Fernando Pessoa), criticism of life (Mathew Arnold), palavra-coisa (Sartre), linguagem em estado de pureza selvagem (Octavio Paz), poetry is to inspire (Bob Dylan), design de linguagem (Décio Pignatari), lo imposible hecho posible (García Lorca), a liberdade de minha linguagem (Paulo Leminski) – Portuguesia é um catatauar das línguas portuguesas, um yguaraniar de vozes, a po esia como mãe virgem de mil e um filhos do mundo.” POETA-PESQUISADOR Wilmar Silva vive em Belo Horizonte, onde trabalha na invenção de uma poética, a exemplo de “Cachaprego”, Anome Livros, BH/MG, 2004. Performer, já fez e faz espetáculos por todo o Brasil e no exterior. Foi selecionado para o Museu da Língua Portuguesa de São Paulo, com poemas de “Anu”, 2001. Participa de diversas antologias, como a “Antologia da Nova Poesia Brasileira”, de Olga Savary, “A Poesia Mineira no Século XX”, de Assis Brasil, “Fenda – 16 poetas vivos”, de Anelito de Oliveira, “Oiro de Minas – a nova poesia das Gerais”, de Prisca Agustoni, Portugal. Organizou a antologia “O achamento de Portugal”, da Anome Livros em parceria com o Instituto Camões e Fundação Calouste Gulbenkian, e o catálogo/antologia “Terça poéticas: jardins internos”, através da Secretaria de Estado de Cultura de MG, 2006. É curador do projeto de leitura, vivência e memória de poesia “Terças Poéticas”, da Secretaria de Estado de Cultura/MG em parceria com o Suplemento Literário de Minas Gerais e Fundação Clóvis Salgado. Entre suas publicações autorais “Estilhaços no Lago de Púrpura”, 2006/2007 e tem no prelo “Yguarani – poética não completa”, pela Cosmorama Edições, Portugal. Márcio Almeida (in Acontece em Sorocaba)
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